Mulheres de 3 associações quilombolas do Jalapão lançam coleção de esculturas

Jalapoeira Apurada é o nome da coleção que será exposta pela primeira vez na Feira na Rosenbaum

Mulheres de três associações quilombolas do Tocantins – Associação Comunitária dos Artesãos e Pequenos Produtores de Mateiros (ACAPPM), Associação de Artesãos e Extrativistas do Povoado do Mumbuca e Associação Quilombo do Prata lançam uma série de esculturas feitas com capim dourado e buriti durante a primeira edição de 2024 da Feira na Rosenbaum. A iniciativa ocorre de 14 a 24 de março, no Edifício Martinelli, o primeiro arranha-céu da cidade, com construção iniciada há 100 anos. 

Com o apoio do WWF-Brasil, Instituto A Gente Transforma (IAGT) e Cooperativa Central do Cerrado, as três associações se empenharam em um processo criativo desafiador ao longo de quase 2 anos. “Foi um projeto maravilhoso, muito desafiador no primeiro momento porque ficamos com medo de não conseguir fazer”, relembra Railane Ribeiro da Silva, de 28 anos, presidente da associação do Mumbuca no período de criação das peças, “Os modelos que ele (Marcelo Rosenbaum) trazia nunca tinham sido feitos de capim dourado, então a gente ficou com medo de arriscar”. Uma vez deixado de lado o receio de tentar, elas aprenderam que eram capazes de fazer e fizeram muito bem-feito. “Esse projeto proporcionou ainda muita união entre as três associações, muita força e muita garra de nós todas”. 

A proposta foi a de utilizar os mesmos materiais e técnicas que as artesãs já utilizavam no dia a dia, porém em grandes proporções para trazer novos produtos e encontrar novos mercados. “Durante dois anos lideramos o processo de desenvolvimento deste projeto, e entendemos que se tratava de um exercício de escuta, para trazer o protagonismo das mulheres quilombolas e exaltar esse saber fazer manual que é uma arte ancestral. Buscamos construir uma identidade que partisse das suas memórias com o capim dourado e motivá-las a falar neste lugar de conhecedoras desse universo amplo de arte e de resistência na luta pelo território. O próprio nome Jalapoeira Apurada, criado por elas, remete à reivindicação pela autoria quilombola do artesanato do capim dourado e ao orgulho de pertencer ao Jalapão. O que queremos trazer aqui é a força dessa união de mulheres que trabalham pela conservação do Cerrado”, ressalta Marcelo Rosenbaum, fundador do Instituto A Gente Transforma. 

“Esse não é um projeto que veio pronto, nós construímos juntos. E tem mesmo que ser com todo mundo, tem que ser o melhor para as nossas artesãs”, comemora Laudeci Ribeiro de Souza Monteiro, 45 anos, presidente da ACAPPM. “Antes, quantos projetos não chegaram aqui com tudo pronto, sem ouvir a gente? Não à toa, não iam para a frente.” 

O objetivo foi fomentar a produção das artesãs e, consequentemente, melhorar a qualidade de vida de toda comunidade. “Já está provado que povos e comunidades tradicionais são os maiores protetores da terra”, explica Ana Carolina Bauer, analista de conservação WWF Brasil. “Queremos chamar a atenção para esse Bioma e mostrar que a valorização das comunidades e saberes tradicionais são essenciais para a conservação e manutenção do Cerrado. Além dessa coleção, o projeto também incluiu ações de orientação para o manejo correto do fogo, treinamento sobre precificação e estruturação física das lojas de artesanato”, completa Bauer. 

Luzia Passos Ribeiro, 35 anos, presidente da Associação Quilombo do Prata conta que em sua comunidade, 90 famílias vivem da agricultura familiar e do extrativismo. “Poucos aqui têm salário, a pesca paga muito pouco, então o capim representou um trabalho diferenciado em termos de renda”, conta. Ainda sem a titularidade oficial emitida pelo governo, o Quilombo do Prata já é reconhecido e certificado pela Fundação Palmares desde 2005, hoje sofrendo pressão do agronegócio, que avança pela região principalmente com a monocultura da soja. “Também por isso precisamos manter essa cultura viva, para preservar a nossa região, a nossa casa. Já imaginou o Jalapão sem o capim dourado? Não existe”, desabafa Luzia. 

Maria Aparecida Ribeiro de Sousa, presidente da Cooperativa Central do Cerrado, também uma artesã do quilombo do Prata, celebra a conquista. A Central, que acompanha as três associações há 18 anos, sabe da importância desta coleção. “O Capim dourado não é novidade, mas agora ele chega com um novo olhar e traz novas perspectivas”, diz ela. “Nossa expectativa é que ela amplie os horizontes das associações, que aumente o mercado para elas. É isso que ajuda a manter uma cultura em pé. Afinal, as principais guardiãs do Cerrado são essas mulheres”. 

Sobre a Feira do Rosenbaum 

Em formato de plataforma criativa, a Feira na Rosenbaum traz como propósito “expor a alma brasileira”. Por meio de suas edições que reúnem artistas e artesãos, desde comunidades criativas tradicionais até designers independentes, leva ao público criações autorais que ajudam a contar e promover a rica diversidade cultural, em uma atmosfera multissensorial.   

Apoia e promove comunidades criativas tradicionais, por meio do Instituto Socioambiental (ISA), que propõe soluções a questões sociais e ambientais com foco na defesa de bens e direitos sociais, coletivos e difusos relativos ao meio ambiente, ao patrimônio cultural, aos direitos humanos e dos povos.  

Idealizada pela curadora de arte e design Cris Rosenbaum, a Feira na Rosenbaum também conta com uma loja física em São Paulo, no bairro de Pinheiros. 

Sobre o DW! Semana de Design de São Paulo 

Reconhecido como maior festival urbano da América Latina e um dos mais importantes do mundo, a DW! é realizada anualmente, na capital paulista, e tem o objetivo promover a cultura do design e suas conexões com a decoração, arquitetura, arte, artesanato, urbanismo, inclusão social, diversidade, negócios, inovação, sustentabilidade e outros temas da economia criativa.  

Fonte: WWF-Brasil

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